Pensar Hoje - retratos do agora

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Viajando

É oportunidade para mudar o porto. De viagem, os nômades nos contam um pouco. Para viver a viagem, é preciso saber que há a chance de nada mais ser o mesmo. Sem casa, o porto pode ser qualquer coisa ou pessoa. As luzes da cidade ganham significado, talvez até sejam vida.

Sim, somos tudo o que vemos, mas mais ainda o que sentimos. Saudades só acontecem de verdade quando se viaja para longe. Ou, ainda mais, quando algo ou alguém parte. Partir também é quebrar, deve ser isso. Temos várias respostas já dentro do vocabulário, é vocação natural do dizer.

Como será criar novas raízes quando não desapareceram as antigas? Pergunto-me em meio a tudo o que acontece, a árvore só tem um tronco normalmente. Há sementes que nascem fora da terra, mas esse é o porto. E não há eleição, simplesmente acontece.

E viver, o viver de vida, é importante: a criança, num passeio, verdadeiramente viaja; ela conhece todo o mundo fantástico. É que ele nos é apresentado bem cedo, daí uns esquecem-se dele e outros não. É curioso, uns florescem-se nele e outros apossam-se de tudo o que estiver perto porque não é suficiente.

É que quando somos pequenininhos, o mundo é muito. E ao crescer, parece que ele diminui. É só sensação, tudo é do mesmo tamanho. Aí, se não é suficiente, foi a vontade de querer tudo que aumentou demais. Afinal, se um quarto é um mundo, por que anos depois ele deixa de ser grande?

Verdade, a grandiosidade nos é tentadora. Mas só é mais fascinante que ela saiba que somos pequenos. Não ter espelho faz pensar que é preciso ser maior para ver algo menor. Muito na vida é ilusão, talvez ser pequeno também a seja. Mas não condeno a ilusão, ela também pode ajudar alguém a crescer.

Volto a dizer: o mundo fantástico é o único que nos deixa para fora da redoma de vidro. Sem tal paisagem, já não somos mais crianças, talvez tornemo-nos assim objetos! A criação já não nos é vertigem se formos pequenos. Somos chance de um sonho, não é à toa que dizem: a cada vez que alguém cresce, uma fadinha morre.

E a viagem tem tudo a dizer. Ela sempre vai perguntar se o chá terá torrões de açúcar, qual a carta favorita do baralho, se a ciranda já acabou. Tudo para a viagem ser a mais completa. Não pergunto, mais, se a viagem roubará um pedaço da minha realidade.

Um comentário: