Pensar Hoje - retratos do agora

sábado, 11 de outubro de 2008

A gelatina pelo mundo

Não sabemos, mas o mundo nos é tudo e somos tudo ao mundo. Ele sem o significado, o mote, que somos nós, só é uma massa imberbe de terra. A sacanagem, a malícia, o bem e a ternura estão em nós, nós. E à terra a história só acontece com emoção.

Aqui também é um conceito relativo. Temos consciência, sim, de que não a temos de verdade. Ela é só um elo imaginário que não nos dista da matéria em que somos inseridos, a gelatina pode ser um bloco de pedra. E à ilusão damos os louros de nossas vitórias, eles são impuros tanto quanto nós, não precisamos sentir culpa.

Sem o cuidado devido, nossas piores coisas aparecem e o simples fato de querermos viajar pelo mundo pode nos parecer um dilema. Três pontinhos não conseguem, ainda, descrever um dilema por completo. Ele são os três pontinhos e a falta deles ao mesmo tempo.

Garçom, por favor, um café. Ele ainda é o que consegue um torpor cônscio, meu deus. E não tem gosto de gelatina, mas de terra. Vamos caminhar pela linha imaginária que traçamos quando viemos ao mundo, ainda faz bem isso. Cuspir palavras não deve ser crime também, só cuspir nelas.

E a conta, por favor. Vou pagá-la antes, é mais fácil.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O cipreste

Imponente, a mim é um milagre da criação: não há avenida menos chamativa quando vejo duas fileiras de meia dúzia deles. O vento o acaricia igualmente e ele corretamente o reverencia. Teve importância grande em minha criação, admito. Todos somos vento, passamos desapercebidos sempre que quisermos. Só que ele sempre nos notará, sempre tentará captar mais de nossa motivação.

E é ele, o motivo. Ele é o sopro, o motor. Nunca admitimos nadar contra, mas acontece a toda hora. Deixar ir é mais fácil que deixar se ir. Partir a si próprio admite duas interpretações. Ambas corretas porque deixar o recinto também é deixar um pouco de si para trás.

Claro, alguém o plantou. E sim, é verdade, sofrerá com as ervas daninhas, os fungos, os lenhadores. Ainda é requisito, para quem quiser desvendar os céus, vencer a terra. Ao menos por aqui, onde quem manda é ela, alimentando a raiz; os céus, o cimo.

Quando pensamos ser ou ter asas, devemos lembrar que elas nos fazem algo entre planar vagarosamente ou rasgar os céus: geralmente só recordamos a liberdade implicada. Ela nos deixa com a escolha de admirar a paisagem ou lá chegar. A verdade é que ninguém sabe exatamente onde é lá. Então muitos resolvem admirar a paisagem.

Um cipreste não sai de seu lugar, mas a única referência que seu cimo tem é o vento. Ele pode escolher entre permanecer parado a contemplar o vento e permanecer em movimento vendo o vento passar. E a razão dele estar sempre verde é que ele, nessa avenida, viaja pelo mundo com seus onze companheiros.

domingo, 13 de julho de 2008

Estática

Pode também ser revigorante andar parado; assim o diz meu corpo hoje, ao pela primeira vez sentir o farfalhar das folhas, sim, lá ao longe - longe do que? - sem se preocupar com as qualidades ou defeitos dele. Também pode ser boa a sensação de não julgar, não ser julgado - sequer olhar por um tempo.

O descanso, quando de verdade, pode ser confundido com algo não benigno. Mas, oras, depende de como medimos isto. Afinal, pomo-nos em condição da justa incapacidade para aferir algo. Felizmente é só por um tempo.

E, então, como não confundir o descansar com o apodrecer, nestes casos? Nele, assim como o fiz, ser medido após tal descanso ou padecimento. Sim, demoramo-nos a entrar de volta em nossos corpos, mas eles também agradecem quando é um descanso. Um decanto, diria.

A fugacidade deste momento nos é cara: como evitar fugir se simplesmente estamos fora? Não há resposta necessariamente precisa, até assim não podemos evitar nossos corpos de pensar ou até de tomar decisões por nós. Aliás, "por nós", saliento.

Cabe a nós decidirmos por quanto tempo ficaremos estáticos. Se pouco ou se muito, o julgamento é pessoal. Mas há um consenso. Ninguém descansa sem ter se cansado de algo. Como quase tudo, é talvez melhor que não seja para sempre. Ou muito.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Olhos fechados

(erros: ^H é o backspace para correção)

É com alegria que escrevo de olhos fechados. É parte de uma cena tudo isso. Ouvir música e, ainda de olhos fechados, escrever, me é gratificante. Há a especialidade de se sentir, ainda, a melodia no peito, com tanto o ribombar o movimento mais agressivo quanto o adágio a me acalentar.

Compor de olhos fechados deve ser difícil, uns dizem. Devo concordar, escrever também o é. Mas quando as palavras saem do coração, não sei, é mais possível chorar palavras sem se arrepender. Não temos nossa blindagem e queremos sentir um pouco mais para refletir por que é que é tão forte...

Não tem dilema nisso, aposto. E o melhor, não preciso de meus óculos para enxergar melhor o que escrevo.

A orquestra estava bonita, na música cada instrumento passava a batuta ao outro: violinos fazendo a vez de trompetes, até triângulos tiveram chance de se mostrar. É porque eles devem ser a forma perfeita, acredito.

Sem ver, uns podem perder a linearidade do que escrevem. O que é que escrevi há dois parágrafos mesmo? Não tenho como reler e tentar dar mais sentido a algo. Mas estava tudo em minha mente, deve fazer sentido. Vamos para a próxima palavra, o resto deve fazer sentido.

Olhos fechados devem combinar com breu, acredito. Mas sem barulho, por favor. Sem ruído. Sem interrupções, depois penso no que passou. Ou não. Devo confundir as coisas agora, não tenho esse costume (de escrever com olhos fechados).

Voltando à música, o resultado deve ser bom se a sensação no coração ainda é a mesma quando terminar de escrever. Porque se escrevemos alguma coisa com uma sensação no coração e, ao final do texto, el^H^H^H ela mudar,^H é porque algo deve ter mudado no meio do caminho. E só de olhos fechados para ainda ao mesmo tempo olhar para dentro e tentar continuar igual dentro como fora.

Ainda escreverei com música um dia. E, claro, de olhos fechados.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Dilema

...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Viajando

É oportunidade para mudar o porto. De viagem, os nômades nos contam um pouco. Para viver a viagem, é preciso saber que há a chance de nada mais ser o mesmo. Sem casa, o porto pode ser qualquer coisa ou pessoa. As luzes da cidade ganham significado, talvez até sejam vida.

Sim, somos tudo o que vemos, mas mais ainda o que sentimos. Saudades só acontecem de verdade quando se viaja para longe. Ou, ainda mais, quando algo ou alguém parte. Partir também é quebrar, deve ser isso. Temos várias respostas já dentro do vocabulário, é vocação natural do dizer.

Como será criar novas raízes quando não desapareceram as antigas? Pergunto-me em meio a tudo o que acontece, a árvore só tem um tronco normalmente. Há sementes que nascem fora da terra, mas esse é o porto. E não há eleição, simplesmente acontece.

E viver, o viver de vida, é importante: a criança, num passeio, verdadeiramente viaja; ela conhece todo o mundo fantástico. É que ele nos é apresentado bem cedo, daí uns esquecem-se dele e outros não. É curioso, uns florescem-se nele e outros apossam-se de tudo o que estiver perto porque não é suficiente.

É que quando somos pequenininhos, o mundo é muito. E ao crescer, parece que ele diminui. É só sensação, tudo é do mesmo tamanho. Aí, se não é suficiente, foi a vontade de querer tudo que aumentou demais. Afinal, se um quarto é um mundo, por que anos depois ele deixa de ser grande?

Verdade, a grandiosidade nos é tentadora. Mas só é mais fascinante que ela saiba que somos pequenos. Não ter espelho faz pensar que é preciso ser maior para ver algo menor. Muito na vida é ilusão, talvez ser pequeno também a seja. Mas não condeno a ilusão, ela também pode ajudar alguém a crescer.

Volto a dizer: o mundo fantástico é o único que nos deixa para fora da redoma de vidro. Sem tal paisagem, já não somos mais crianças, talvez tornemo-nos assim objetos! A criação já não nos é vertigem se formos pequenos. Somos chance de um sonho, não é à toa que dizem: a cada vez que alguém cresce, uma fadinha morre.

E a viagem tem tudo a dizer. Ela sempre vai perguntar se o chá terá torrões de açúcar, qual a carta favorita do baralho, se a ciranda já acabou. Tudo para a viagem ser a mais completa. Não pergunto, mais, se a viagem roubará um pedaço da minha realidade.

domingo, 6 de abril de 2008

O azul da menina

E eu não sei. Foi bonito ver aquele azul, tão próprio, derramado sobre tudo o que ela chorava. Como se o azul fosse terminar, sabe? Depois de tudo passar e ela lembrar que ele também saía de seu sorriso, percebeu que a cor era um pedaço dela.

Parecia fulminante, dava para perceber a cena tornando-se azul com o cair das lágrimas. O cinema pausou-se quando ela resolveu fechar os olhos e sonhar, tornar-se aquilo que não sabia em que iria se transformar. A casa ficou mais vermelha quando isso aconteceu, o telhado só queria sorrir.

Tudo tornou-se diferente dali em diante, o choro tinha filtrado tudo de ruim que havia no coração - este resolveu bater mais comedidamente, assim como outras vezes que isso acontecia no prédio e as crianças ficavam quietas, como se escutassem o que acontecia.

Enquanto isso uma mãe, dela muito amiga, resolveu subir e perguntar o que tinha acontecido - a filha misteriosamente resolveu dizer sua primeira palavra, e não era "papai" ou "mamãe", era "titia". Como a única titia poderia ser ela, subiu. Subiu já lembrando que as crianças sabem muito mais que os adultos.

Lá, está ela azul, já enxugando suas lágrimas. Ao entrar em contato com elas, entendeu tudo o que se passava em sua vida - ninguém precisava saber. Deitou-lhe no colo e logo a menina começou a ter outros tons, pastéis, dessa vez de um alívio verde oliva como nunca. O azul também ficou bem pastel, alegre, forte.

Ela só precisava de um pouco de carinho de verdade.

Cuidemos de quem nos ama, este pode ficar sem cores. Se não tiver mais cores para alimentar a alma, ela resolve perder também o pretume. E daí, ao desaparecer, não haverá mais nada a ser cuidado.