Pensar Hoje - retratos do agora

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

SOPA (português / english)

Proposta complementar às leis contra pirataria: leis anti-crime

Em que pese a boa intenção dos membros do congresso americano, proponho a criação de uma proposta semelhante, da Stop Crimes Act. Devemos requerer, usando-se dos mesmos tipos de controle, que:

  1. Bancos não devem receber pagamentos de criminosos. Devem implementar mecanismos para autenticar a origem de todo o dinheiro circulado. Cinco dias a contar de um mandado judicial, o dinheiro deverá ser disponibilizado à corte.
  2. Correios não devem ser meios para terroristas propagarem o terror. Todo cidadão a enviar qualquer correspondência deverá se cadastrar. Toda correspondência deverá ser autenticada. Um mandado judicial deve bastar para que futuras correspondências de uma determinada pessoa não circulem.
  3. Governos devem servir como exemplo de boas práticas. Em caso de corrupção, todo o patrimônio dos políticos e funcionários envolvidos deverá ser cedido ao erário. Pessoas trabalhando para o governo cederão o direito à comunicação informal.

Por que?

Em outubro de 2011, o Judiciário dos Estados Unidos introduziu à Câmara dos Deputados a proposta chamada Stop Online Piracy Act (SOPA). Percebeu-se uma vontade de estabelecer mecanismos de controle e restrição para combater a pirataria no país, tendo com efeito colateral a possibilidade de controlar e restringir qualquer site do mundo, já que o registro de todos os domínios depende, direta ou indiretamente, de uma entidade sediada nos Estados Unidos.

A SOPA, tão premente, entre outros, requer que:
  1. Conforme 102.c.2.A.i: Provedores desconheçam nomes infringindo a Lei (por exemplo, se você digitar www.google.com.br e o site infringir a lei, o provedor deverá prevenir que você saiba o endereço IP desse site, fazendo com que o uso comum fique impossível);
  2. Conforme 102.c.2.B: Mecanismos de busca não mostrem links diretos para páginas que infrinjam a Lei (por exemplo, se uma procura sua retornar uma página proibida, o mecanismo não poderá lhe informar onde está a página);
  3. Conforme 102.c.2.C: Provedores de redes de pagamento como Paypal não efetuem pagamentos ou doações a sites que infrinjam a Lei.





Complimentary proposal to the anti-piracy laws: anti-crime laws

Considering the good intentions of the american congressmen, I propose the creation of a similar one, the Stop Crimes Act. We should require, using the same control procedures, that:
  1. Banks should not receive payments from criminals. Mechanisms in order to authenticate the origin of all circulating money must be implemented. Within 5 days after being issued a warrant, the monies should be made available to the court.
  2. Postal services should not be used for terrorists to propagate fear. Every citizen willing to send any mail must be registered. Every mail order must be authenticated. A court warrant must suffice for future mail from a specific person not to circulate.
  3. Governments should serve as examples for best practices. Should corruption be detected, every estate from the involved politicians and employees must be conceded to the public coffers. People working for the government will relinquish rights to informal communication.

Why so?

In October 2011, the Unites States’ Judiciary introduced a bill in the Unites States House of Representatives the so called Stop Online Piracy Act (SOPA). A will to establish means of control and restriction to fight piracy in the country was perceived, having as a side effect the possibility to control and restrict every site around the world, since the registration of every domain depends, directly or indirectly, upon an entity from the United States.

SOPA, so compelling, along other matters, requires that:
  1. According to 102.c.2.A.i: Service providers consider unknown law-infringing names (for example, if you type www.google.com and the site is infringing, the provider should prevent you of knowing the IP address of that site, making common use impossible);
  2. According to 102.c.2.B: Search engines don’t show direct links to law-infringing pages (for example, if any of your searches point to a forbidden page, the engine cannot inform you where the page is);
  3. According to 102.c.2.C: Payment network providers such as Paypal don’t complete payments or donations to law-infringing sites.

sábado, 10 de setembro de 2011

Ares novos, novos ares

Sair pode não significar abandonar. Ao alçar voo, temos novos objetivos e novas perspectivas. E a vida é incongruente, não injusta: nos dá, a cada de nós, um diferente ponto de vista. Novos ares dão nova perspectiva, ainda que continuemos os mesmos. Expandem nosso viver.

Por isso tíquetes são passagens, ritos para chegar a outros destinos. Mesmo um velho destino sempre traz um novo horizonte e uma nova história. Quando escolhendo a bagagem, que é a história, escolhemos as coisas mais a nós caras quando viajando para longe. É que, para não sentir saudades da nossa origem, devemos levar algo que nos lembre de quem somos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Recomeço

Há coisas que simbolizam recomeço. Uma delas é perder, pois quase tão somente ao perder nos encontramos. Por isso no tarô o enforcado frequentemente ri: ele nos conta que estar de cabeça para baixo não significa estar em maus lençóis. Desprender-se não só significa liberdade à matéria, clama também pela independência, pelo augúrio de novos caminhos e sangue renovado.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Os dons bem bons

É bonito ver os dons. Eles independem da situação em que a pessoa se encontra: todos têm algum. Por vezes, eles se tornam até uma obrigação porque podem ajudar outras pessoas, quiçá mudar suas vidas. E não é necessário que se seja um ídolo, somos todos humanos. Por favor, continuemos humanos.

sábado, 4 de dezembro de 2010

E o tempo?

Ele é imutável, mas o sentimos passar. Cabe tanto em um olhar quanto em toda nossa vida. Não podemos medi-lo, já que não nos é físico. Ainda assim, estabelecemos na existência passos para ele: nove meses para nascer, um ano de sofrimento, décadas de diversão, milênios de solidão. Algumas dessas são compreensíveis, outras não.

Uns dizem não entender o porquê de um segundo ser tão importante, outros que nele pode estar toda a nossa vida, todo nosso propósito, ao acontecer. E a medida, tão igual a todos porque passa à mesmíssima maneira para cada um, encontra dúvidas. Se ele fosse realmente assim, não teríamos nossas exclamações: "já?", "ainda?", "é cedo!", "é tarde!".

Parece que ele depende de um observador: quando contamos os segundos no relógio, eles demoram a passar. Ao nos divertirmos, os segundos transformam-se em horas passadas. À última hora da vida, quando sabida, é impossível a hora ter maior valor. E esse tempo todo, no fim, para onde vai?

Investimos-no, certamente finito, em coisas vãs ou necessárias, alegrias e agruras. Mas quando mesmo foi a última vez em que paramos a vida, a que quase certamente passa afoita e às vezes perde a paisagem, para prestar muita atenção no nada que temos dentro e fora?

É uma ofensa à vida ou à existência percebermos ter, dentro de nossos sis, enormes vácuos esperando para serem contemplados? O grande céu, azul e límpido, escuro e mais notívago ou claro e em formas de bolos, acha-se como uma vastidão que nos parece vazia ao olho nu. No entanto, atrai inúmeros observadores n'onde sua incolumidade e... quase inexistência congrega olhares estupefatos para sua imensidão.

Sua alternância de matizes nos dá o horário e nos orienta a dormir e a acordar. Define, pouco a pouco, quanto temos para cumprir nossa jornada, e nos permite ou obriga a uma pausa a cada período.

Só uma pergunta: para a pausa ser um descanso, o céu tem de estar fora ou dentro de nós?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

E hoje o pensar muda para o que era antes

Passei, ontem, por um lugar querido.

Como muitos sabem, lugares queridos emocionam. Revi algumas pessoas muito importantes na vida. Não, não são líderes, professores, chefes. São pessoas que compunham o dia-a-dia, formavam parte da vida e da rotina.

É uma homenagem a essas pessoas que constroem parte de nossa vida sem que saibamos - ou, até, sem que elas próprias saibam. De atendentes de padaria a garçons de bares, frentistas ou até funcionários de estacionamentos, pessoas fazem vidas sem que sequer percebam - ou, se percebem, o fazem muito bem.

Parece estranho, mas percebemos muito disso só depois de mudarmos para outro lugar. E, se não nos revisitamos, não vemos o que fomos e talvez também não percebamos quem podemos ser.

Mais bonito ainda é rever certos brilhos nos olhos. Estes não podemos descrever, então cabe a nós cuidarmos de guardar, amanhã podemos não voltar.

Muito obrigado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O tempo chora

Lavando nossas almas, ele nos surpreende com a clareza de algo que está por vir. Nesse momento, perguntamo-nos o que há além da cortina. Diz ele contar o que realmente queríamos ouvir ou falar. O imprescindível então resseca nossas lágrimas para entendermos mais, contarmos melhor, lermos nas entrelinhas. Não é possível, dizemos. O céu só nos diz para parar. Parar. E observar.

Assim quero ficar, por um belo tempo, até a compreensão vier e me acordar, contando a história para eu poder dormir.

É breve o tempo chorando. Só que dura muito.

Hoje choveu.

domingo, 19 de julho de 2009

Rebelião

O espírito sem resposta também não tem casa. Ela é uma música que cantamos a toda hora quando criamos uma ilusão em nossa cabeça: a vida tem, tem de dizer, nos dá a sensação de que tudo poderia ser feito quando sim, é verdade!

A ilusão nem sempre é algo falso. E serve, muito bem, para dizer-nos que algo, que já existe, existe. Digo porque nem sempre sou ouvido. Esse objeto pode precisar de amparo para viver ou cai no sincero esquecimento. E esquecer, também, não é não lembrar, porque ninguém esquece.

Lembrando a arte do amparo, precisamos dele. Não porque somos únicos ou mais juntos, é que não dá para fazer tudo. Daí acontece. A revolta? Também não é revolução, é só vontade de mexer, remexer. A revolução só acontece se alguém tiver mexido os ovos, senão tudo são branco e amarelo.

Aos olhos de quem vê o ovo, o irmão diz tudo: "sou amarelo e você preto, azul, verde, castanho. Contudo, temos muito em comum. Mas por que você não nasce, assim como eu?". Somos caso a se pensar, reflitamos. Não há como amalgamar a massa fluida ao nosso duro julgamento, ele só enrijece e devemos aproveitar enquanto podemos ver.

Ou sentir. E nisso construímos as rebeliões dentro de nós, por isso nos sentimos impertinentes. Dói mas é. Viver sempre fará falta, também aproveitemos. Nada melhor que uma revolta para voltar, continuar o que era com outra cara, diferente.

A vida não é cara.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

epitáfio

falece hoje, 10 de fevereiro de 2009, seu Juarez. companheiro de café, alegre notívago, garçom há mais de trinta anos, amigo reclamão. levará consigo canetas orgulhosamente conquistadas pelo árduo trabalho. será sentida falta de tudo: a copa tinindo, o café sempre quente, fumegante às dez da noite e às três da madrugada, os sanduíches caprichados e as palavras contentes mesmo no trabalho mais duro. aposentara-se há quatro meses e ainda trabalhava. alforriou-se há dias, mas a vida estava no hotel em que trabalhava. deixa saudades e palavras consistentemente verdadeiras que permanecerão intactas pelo tempo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O cantil

Duas almas desalmadas nem aos céus podem recorrer; suas barracas também não são tão símbolos de segurança, tampouco o céu que teria em enganá-los. O peso é parco, a idéia de realidade já inexiste. Não há nada para buscar na barraca, só o som zunido do deserto consegue entrar em seus ouvidos, até nas almas desalmadas.

O mapa? Ainda nada diz. Consertar o carro só dá a esperança de encher o cantil mais uma vez. A direção só é decidida, não que seja certa. O passo parco só garante um erro menor: não se sabe onde estará o novo cantil. Mas o binóculo diz mais! Pena que ainda estamos longe.

Mas o cantil d'agora é importante, é importante. Tenhamos determinação, amanhã poderá ser melhor. É por lá, diz ele! E seguiremos, vamos seguir, não podemos perder mais tempo. Ou, mesmo que percamos, façamos algo para não pararmos. E não há discussão nessas horas: um está tão perdido quanto o outro e nenhum mapa diz nada, até as estrelas mentem para nós.

A escravatura ainda não acabou, digo. Temos duas barracas para nós dois, mas parece que só uma existe. Uma é igualzinha à outra, mas o sono em ambas é ruim, ruim de uma forma diferente. E ah, a do escravo só é mais iluminada porque ele precisa trabalhar.

Um mundo está longe, mas o nosso é menor: busquemos! E eu quero, também, o cantil. Mas calma, calma. Deverá passar tudo isso, espero. E quando isso tudo passar, deveremos rir do que aconteceu, ou então nos separarmos e irmos cada um para seu caminho. Mas de tanto tempo longe, não lembro qual é o caminho. Não temos mais história, qual o sentido?

Não quero, não quero matar! Sou ainda honesto, mesmo que o capataz sem causa continue aqui. Vamos seguindo. Mas o capataz não perdoa a nada. A saída não é justa, ela só servirá para ele. E os reprimidos? Que continuem escravos, ele acha. Se não podemos consertar o que tivemos, joguemo-nos fora. Sigamos, sigamos, sigamos a algo que não sabemos o que é: o cantil é importante.

Ele me deixou sem água. Fenecerá ele! E não é por vingança, não. É que ele se acostumou com água, a ele vai faltar, já estou acostumado sem: o corpo a tudo se adapta quando a alma é forte. E a mais um pesadelo não suportarei, se ele pensa que é esperto, ignorância plena: vou tomar um restinho de água aqui.

... e ele ainda consegue achar as estrelas bonitas! Não, não suporto. E agora a água acabou até para ele. Quero ver qual lápide o acolherá, porque agora será só ele a procurar sentido na vida! Porque a minha serão os grãos de areia que já correm pelas minhas mãos...

... baseado na peça O cantil do grupo Teatro Máquina no Centro Cultural São Paulo - texto escrito em 28/11/2008.

sábado, 11 de outubro de 2008

A gelatina pelo mundo

Não sabemos, mas o mundo nos é tudo e somos tudo ao mundo. Ele sem o significado, o mote, que somos nós, só é uma massa imberbe de terra. A sacanagem, a malícia, o bem e a ternura estão em nós, nós. E à terra a história só acontece com emoção.

Aqui também é um conceito relativo. Temos consciência, sim, de que não a temos de verdade. Ela é só um elo imaginário que não nos dista da matéria em que somos inseridos, a gelatina pode ser um bloco de pedra. E à ilusão damos os louros de nossas vitórias, eles são impuros tanto quanto nós, não precisamos sentir culpa.

Sem o cuidado devido, nossas piores coisas aparecem e o simples fato de querermos viajar pelo mundo pode nos parecer um dilema. Três pontinhos não conseguem, ainda, descrever um dilema por completo. Ele são os três pontinhos e a falta deles ao mesmo tempo.

Garçom, por favor, um café. Ele ainda é o que consegue um torpor cônscio, meu deus. E não tem gosto de gelatina, mas de terra. Vamos caminhar pela linha imaginária que traçamos quando viemos ao mundo, ainda faz bem isso. Cuspir palavras não deve ser crime também, só cuspir nelas.

E a conta, por favor. Vou pagá-la antes, é mais fácil.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O cipreste

Imponente, a mim é um milagre da criação: não há avenida menos chamativa quando vejo duas fileiras de meia dúzia deles. O vento o acaricia igualmente e ele corretamente o reverencia. Teve importância grande em minha criação, admito. Todos somos vento, passamos desapercebidos sempre que quisermos. Só que ele sempre nos notará, sempre tentará captar mais de nossa motivação.

E é ele, o motivo. Ele é o sopro, o motor. Nunca admitimos nadar contra, mas acontece a toda hora. Deixar ir é mais fácil que deixar se ir. Partir a si próprio admite duas interpretações. Ambas corretas porque deixar o recinto também é deixar um pouco de si para trás.

Claro, alguém o plantou. E sim, é verdade, sofrerá com as ervas daninhas, os fungos, os lenhadores. Ainda é requisito, para quem quiser desvendar os céus, vencer a terra. Ao menos por aqui, onde quem manda é ela, alimentando a raiz; os céus, o cimo.

Quando pensamos ser ou ter asas, devemos lembrar que elas nos fazem algo entre planar vagarosamente ou rasgar os céus: geralmente só recordamos a liberdade implicada. Ela nos deixa com a escolha de admirar a paisagem ou lá chegar. A verdade é que ninguém sabe exatamente onde é lá. Então muitos resolvem admirar a paisagem.

Um cipreste não sai de seu lugar, mas a única referência que seu cimo tem é o vento. Ele pode escolher entre permanecer parado a contemplar o vento e permanecer em movimento vendo o vento passar. E a razão dele estar sempre verde é que ele, nessa avenida, viaja pelo mundo com seus onze companheiros.

domingo, 13 de julho de 2008

Estática

Pode também ser revigorante andar parado; assim o diz meu corpo hoje, ao pela primeira vez sentir o farfalhar das folhas, sim, lá ao longe - longe do que? - sem se preocupar com as qualidades ou defeitos dele. Também pode ser boa a sensação de não julgar, não ser julgado - sequer olhar por um tempo.

O descanso, quando de verdade, pode ser confundido com algo não benigno. Mas, oras, depende de como medimos isto. Afinal, pomo-nos em condição da justa incapacidade para aferir algo. Felizmente é só por um tempo.

E, então, como não confundir o descansar com o apodrecer, nestes casos? Nele, assim como o fiz, ser medido após tal descanso ou padecimento. Sim, demoramo-nos a entrar de volta em nossos corpos, mas eles também agradecem quando é um descanso. Um decanto, diria.

A fugacidade deste momento nos é cara: como evitar fugir se simplesmente estamos fora? Não há resposta necessariamente precisa, até assim não podemos evitar nossos corpos de pensar ou até de tomar decisões por nós. Aliás, "por nós", saliento.

Cabe a nós decidirmos por quanto tempo ficaremos estáticos. Se pouco ou se muito, o julgamento é pessoal. Mas há um consenso. Ninguém descansa sem ter se cansado de algo. Como quase tudo, é talvez melhor que não seja para sempre. Ou muito.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Olhos fechados

(erros: ^H é o backspace para correção)

É com alegria que escrevo de olhos fechados. É parte de uma cena tudo isso. Ouvir música e, ainda de olhos fechados, escrever, me é gratificante. Há a especialidade de se sentir, ainda, a melodia no peito, com tanto o ribombar o movimento mais agressivo quanto o adágio a me acalentar.

Compor de olhos fechados deve ser difícil, uns dizem. Devo concordar, escrever também o é. Mas quando as palavras saem do coração, não sei, é mais possível chorar palavras sem se arrepender. Não temos nossa blindagem e queremos sentir um pouco mais para refletir por que é que é tão forte...

Não tem dilema nisso, aposto. E o melhor, não preciso de meus óculos para enxergar melhor o que escrevo.

A orquestra estava bonita, na música cada instrumento passava a batuta ao outro: violinos fazendo a vez de trompetes, até triângulos tiveram chance de se mostrar. É porque eles devem ser a forma perfeita, acredito.

Sem ver, uns podem perder a linearidade do que escrevem. O que é que escrevi há dois parágrafos mesmo? Não tenho como reler e tentar dar mais sentido a algo. Mas estava tudo em minha mente, deve fazer sentido. Vamos para a próxima palavra, o resto deve fazer sentido.

Olhos fechados devem combinar com breu, acredito. Mas sem barulho, por favor. Sem ruído. Sem interrupções, depois penso no que passou. Ou não. Devo confundir as coisas agora, não tenho esse costume (de escrever com olhos fechados).

Voltando à música, o resultado deve ser bom se a sensação no coração ainda é a mesma quando terminar de escrever. Porque se escrevemos alguma coisa com uma sensação no coração e, ao final do texto, el^H^H^H ela mudar,^H é porque algo deve ter mudado no meio do caminho. E só de olhos fechados para ainda ao mesmo tempo olhar para dentro e tentar continuar igual dentro como fora.

Ainda escreverei com música um dia. E, claro, de olhos fechados.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Dilema

...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Viajando

É oportunidade para mudar o porto. De viagem, os nômades nos contam um pouco. Para viver a viagem, é preciso saber que há a chance de nada mais ser o mesmo. Sem casa, o porto pode ser qualquer coisa ou pessoa. As luzes da cidade ganham significado, talvez até sejam vida.

Sim, somos tudo o que vemos, mas mais ainda o que sentimos. Saudades só acontecem de verdade quando se viaja para longe. Ou, ainda mais, quando algo ou alguém parte. Partir também é quebrar, deve ser isso. Temos várias respostas já dentro do vocabulário, é vocação natural do dizer.

Como será criar novas raízes quando não desapareceram as antigas? Pergunto-me em meio a tudo o que acontece, a árvore só tem um tronco normalmente. Há sementes que nascem fora da terra, mas esse é o porto. E não há eleição, simplesmente acontece.

E viver, o viver de vida, é importante: a criança, num passeio, verdadeiramente viaja; ela conhece todo o mundo fantástico. É que ele nos é apresentado bem cedo, daí uns esquecem-se dele e outros não. É curioso, uns florescem-se nele e outros apossam-se de tudo o que estiver perto porque não é suficiente.

É que quando somos pequenininhos, o mundo é muito. E ao crescer, parece que ele diminui. É só sensação, tudo é do mesmo tamanho. Aí, se não é suficiente, foi a vontade de querer tudo que aumentou demais. Afinal, se um quarto é um mundo, por que anos depois ele deixa de ser grande?

Verdade, a grandiosidade nos é tentadora. Mas só é mais fascinante que ela saiba que somos pequenos. Não ter espelho faz pensar que é preciso ser maior para ver algo menor. Muito na vida é ilusão, talvez ser pequeno também a seja. Mas não condeno a ilusão, ela também pode ajudar alguém a crescer.

Volto a dizer: o mundo fantástico é o único que nos deixa para fora da redoma de vidro. Sem tal paisagem, já não somos mais crianças, talvez tornemo-nos assim objetos! A criação já não nos é vertigem se formos pequenos. Somos chance de um sonho, não é à toa que dizem: a cada vez que alguém cresce, uma fadinha morre.

E a viagem tem tudo a dizer. Ela sempre vai perguntar se o chá terá torrões de açúcar, qual a carta favorita do baralho, se a ciranda já acabou. Tudo para a viagem ser a mais completa. Não pergunto, mais, se a viagem roubará um pedaço da minha realidade.

domingo, 6 de abril de 2008

O azul da menina

E eu não sei. Foi bonito ver aquele azul, tão próprio, derramado sobre tudo o que ela chorava. Como se o azul fosse terminar, sabe? Depois de tudo passar e ela lembrar que ele também saía de seu sorriso, percebeu que a cor era um pedaço dela.

Parecia fulminante, dava para perceber a cena tornando-se azul com o cair das lágrimas. O cinema pausou-se quando ela resolveu fechar os olhos e sonhar, tornar-se aquilo que não sabia em que iria se transformar. A casa ficou mais vermelha quando isso aconteceu, o telhado só queria sorrir.

Tudo tornou-se diferente dali em diante, o choro tinha filtrado tudo de ruim que havia no coração - este resolveu bater mais comedidamente, assim como outras vezes que isso acontecia no prédio e as crianças ficavam quietas, como se escutassem o que acontecia.

Enquanto isso uma mãe, dela muito amiga, resolveu subir e perguntar o que tinha acontecido - a filha misteriosamente resolveu dizer sua primeira palavra, e não era "papai" ou "mamãe", era "titia". Como a única titia poderia ser ela, subiu. Subiu já lembrando que as crianças sabem muito mais que os adultos.

Lá, está ela azul, já enxugando suas lágrimas. Ao entrar em contato com elas, entendeu tudo o que se passava em sua vida - ninguém precisava saber. Deitou-lhe no colo e logo a menina começou a ter outros tons, pastéis, dessa vez de um alívio verde oliva como nunca. O azul também ficou bem pastel, alegre, forte.

Ela só precisava de um pouco de carinho de verdade.

Cuidemos de quem nos ama, este pode ficar sem cores. Se não tiver mais cores para alimentar a alma, ela resolve perder também o pretume. E daí, ao desaparecer, não haverá mais nada a ser cuidado.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Filosofia da caixa preta

Imagens têm capacidade intrínseca para profunda representação, ainda que ao mesmo tempo apresentem características superficiais à primeira vista. Elas e percepções de seus conceitos não devem restringir a interpretação do registrado, potencializando a busca pelo real sentido de fotografar e assistir a uma fotografia. Ao buscá-lo, tanto o emissor fotógrafo e o receptor espectador devem ter bagagens compatíveis para tanto captar determinado ponto de vista quanto guardar sua imagem de forma adequada.

Como qualquer objeto, sem qualificação e/ou interpretação películas são desprovidas de valor. Ao permitir a construção da crítica na mente do observador, este terá maior capacidade para detectar a significação imbuída em cada seqüência de imagens – tendo tal significação uma relação direta com a especialidade dada às películas pelos veículos, devendo eles tratar imagens evitando desprovê-las de significado.

Na fenomenologia de Merleau-Ponty, a frase “o verdadeiro Cogito não substitui o próprio mundo pela significação mundo” pode ser utilizada para a fotografia onde a diferenciação entre imagem, película e fotografia é necessária. Sendo assim, a imagem é o produto final da representação feita pela fotografia tendo uma pós produção. A fotografia é o processo para a representação de uma imagem e assim requer um agente ativo para sua realização, e a película é simplesmente um meio para a armazenagem de determinada imagem.

Ganha mais corpo, especialmente pelas películas serem formas para registro atual do que será revisto futuramente, a atemporalidade das mesmas. Mais que palavras ou textos noticiando algo em determinado momento, capturam conceitos do passado em que o observador terá oportunidades para viver ou reviver tais contextos registrados.

Estes devem, não substituindo raciocínios lógicos baseados nos fatos noticiados, envolver possíveis regionalidades culturais a fim de, além de disseminar acontecimentos, informar quais são, qualitativamente, os aspectos com relação à cultura, local ou não, prendido na imagem.

Tornando-se elementos primários, imagens representam também ligações dos fatos e acontecimentos com o ser humano, explicando-lhe qual a sua pertinência em tal universo. Ao amealhar o conceito de pertencimento, é necessária a sabedoria para não influenciar os observadores a um determinado ponto de vista, sob risco de ceifar-lhes a capacidade de interpretação segundo sua cultura, ou serem influenciados a somente enxergar sob vis subterfúgios o que será necessário noticiar.

Como a imprensa, a prensa de películas também não pertence a um universo objetivo, imparcial; faz-se necessário tal reconhecimento para os portadores da informação evitarem a manipulação vil da mesma, lembrando que cada gesto cometido ao fotografar é esforço para capturar, em menor espaço possível, a maior ou melhor representação da imagem da realidade possível, lembrando que ela nunca será absoluta, adaptando a produção ao meio no qual será difundida tal representação.

Imagens e suas diversas representações somente tomarão força ideal na realidade se o caminho à fotografia trilhado tiver duas vias: a do compreendimento à necessidade de, o mais possível, representar o mundo e sua intrínseca complexidade, e a do desenvolvimento ao privilégio de captar e simplificar tal mundo à linguagem da mente.

terça-feira, 4 de março de 2008

Homem-pássaro

Renasce, a cada dia, o Homem-pássaro que há em nós todos. Claro, este não tem exatamente um gênero. Talvez nem seja “suficiente” para os outros anunciarem que tem essência. De luz, sim, ele vive. E dói lembrar, tem gente fazendo questão de matá-lo todos os dias.

Não faz mal, ainda assim ele fala. E diz muito, viu? Esta parte ou este todo está em cada um de todos. Temos a capacidade de renascer todo dia, por isso ele sobrevive mesmo com as pessoas o matando.

Também não faz mal morrer um pouquinho; se ninguém morresse, não teríamos coisas novas, juventude, coisas a criar. E toda nossa cria é nossa responsabilidade. Ai de quem não entende isso. Não faz mal, no fim todo mundo entende.

Mas também não faz bem nascer todos os dias. Olhar pela janela e estranhar a paisagem, perguntar o-que-vamos-fazer-hoje e não ter resposta, não saber o porquê de ter levantado hoje... Que hoje?

Ou morrer todos os dias. Como vamos morrer hoje? Por que? Mas já? É, estranho também. Tudo é estranho, é viscoso, tem cheiro de caramelo vencido, o olhar é sinistro ao irmos embora.

E suas penas douradas não passam desapercebidas, não, não. Rinasce più gloriosa, já diziam. Tal ressureição é dona do berço de nossos bebês morais e da lápide de nossos preconceitos. Quem não mudou um pouquinho hoje?

Faz sentido falar em reforma, que a luz nos guia, o céu é seu viveiro. Por isso o sol a todo dia vem, tal qual a roda da fortuna. E a lua, essência da roda, sempre cresce e mingua. Não tem quem não mude, só isso. Uns demoram, é claro, por teimosia. Como já disse, por dentro a alma só ri se ela quiser.

Por isso a vida muda as perguntas a toda hora, é mesmo! E por isso também devemos morrer ou nascer, não? Para entender, só se perguntando hoje e amanhã. Se a resposta for diferente, algo mudou.

Só não devemos ter vergonha de ter outra resposta amanhã, ela pode ser melhor que a de antes. Deixemos ele voar...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Um café

Por favor, sim, descafeinado. É que é como hoje preciso me sentir. Desapegado à própria essência. Estranho a mim mesmo. Não sei o que faço aqui, em pé, à entrada da cafeteria. Agora as razões estão, a mim, veladas – e hei de descobri-las!

Não há razão.

Em terreno tão definido, resoluto, é impossível encontrar respostas dentro de nós próprios. É mesmo? Hoje, o termo, é inexistente. Enquanto o café esfria, sinto a espuma arrefecer e a ganhar tom. Sem razão para em qualquer coisa pensar, tomo ele – sim, simplesmente tomo –, este agora sem parte de seu ser. Não tem hoje.

E o que existe de tão velado?

Deve, no café, existir um pouquinho de mim, pedi ele com bastante carinho. Quem o fez me conhece, sabe do que gosto. E é um dia especial, pois sempre gosto do puro. Do revelado. O aventureiro, até meio ácido de seu humor, também sensível. Tem um pouquinho disso nos meus olhos, não tem?

Ele é algo pessoal.

Nesse descobrimento de nós próprios, refletimos nosso cerne, ele (o descobrimento) é parte integrante da percepção, da dádiva de sabermos que somos parte do que tomamos e também tomamos parte do que somos. Exercitar a tarefa de apreciar nossa essência, defini-la com uma única cor e todos os tons que couberem na memória.

O pessoal é intransferível.

Às vezes as coisas são simplesmente nossas. E percebemos que não dá, não dá para repassar tudo aos outros. Assim acontece com o gosto que sentimos. Esperamos que seja um pouquinho de nós e um montão dos outros, até porque é bom saber como são os outros. Não sei como é você, talvez menos quanto sabe como sou eu.

Mas só eu sei como escrevo na borra.

Às vezes alguém resolve ler uma borra de café e dizer algumas coisas sobre nós. E elas estão até certas! Acertam com honra, valor, até orgulho. Mas o importante é outro, outro, o outro. Segredo esse ninguém tasca, pode ser meu motivo para viver. Se alguém achar uma pista, vai saber – não, de verdade, não tem segredo. Dessa janela ninguém vê o sol.

É que ninguém sabe como é a gente que entra pela porta de um café.

Sai da boca da razão que uns são e uns não são. Só que não tem boca para dizer como são, menos ainda os porquês de serem. Ou não serem, na verdade tanto faz. Para mim, tudo é um e, para o outro, um é tudo. E o que acaba importando é se o outro vai dizer oi ou não.

Oi, um café puro, por favor!